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A conta de luz deve voltar a subir acima da inflação em 2026, num movimento sustentado menos pela chuva do mês - Foto: Reprodução/Setor Elétrico

Alta do petróleo adiciona risco à conta de luz em 2026

Projeções de consultorias vêm apontando reajuste médio nacional na faixa de 5% a 8%

A conta de luz deve voltar a subir acima da inflação em 2026, num movimento sustentado menos pela “chuva do mês” e mais por uma combinação estrutural. Com encargos regulatórios e um risco climático que pode mudar de sinal ao longo do ano.

Projeções de consultorias vêm apontando reajuste médio nacional na faixa de 5% a 8%. Uma dispersão por distribuidora e casos pontuais acima disso, refletindo diferenças de compra de energia, custos de distribuição e passivos regulatórios. Com a guerra no Irã, esse cenário ganha outro elemento importante: a alta internacional do petróleo.

O vetor mais duro é a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), o principal encargo embutido na conta. A Aneel colocou em discussão orçamento de R$ 52,7 bilhões para 2026, com a maior parte financiada por quotas pagas pelos consumidores. Um piso de pressão que independe do regime de chuvas. Mas o que define o valor da conta mês a mês é a hidrologia e, em 2026, ela entra no radar com uma novidade. Os boletins internacionais indicam enfraquecimento do La Niña e migração para neutralidade no outono, com chance de El Niño crescer a partir do fim do inverno/primavera, conforme previsões da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos). Isso aumenta a incerteza sobre o padrão de precipitação no segundo semestre.

Margem suficiente para evitar custos

Há ainda um vetor externo que adiciona risco ao custo marginal do sistema: a trajetória internacional do petróleo. Parte relevante do parque térmico brasileiro opera com derivados como óleo combustível e diesel, cujos preços acompanham o mercado internacional. Em um ambiente de petróleo mais caro, o CVU (Custo Variável Unitário) dessas usinas sobe, elevando o custo da geração termoelétrica. Mesmo usinas a gás natural não ficam imunes, já que contratos indexados a referências internacionais podem transmitir parte dessa pressão.

No curto prazo, porém, o sinal é de alívio. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) manteve a bandeira tarifária verde para março. Sendo assim, reflete condições favoráveis de geração e menor necessidade de despacho térmico adicional neste momento. A decisão indica que, apesar do nível de armazenamento dos reservatórios exigir monitoramento, o sistema ainda opera com margem suficiente para evitar custos extras imediatos ao consumidor.

É aqui que o “fim do La Niña” e a possibilidade de “volta do El Niño” no segundo semestre entram como variável de preço. Em tese, a neutralidade reduz o viés típico do La Niña e abre espaço para maior influência de sistemas regionais; já um El Niño, se de fato se instalar, costuma reorganizar o transporte de umidade e deslocar zonas de chuva — o que pode favorecer algumas regiões (Sul e parte do Sudeste) e penalizar outras (Norte, especialmente), com impacto direto nas afluências aos principais reservatórios.

Banco Central e o mercado monitoram expectativas

Em um cenário benigno — boa recomposição dos reservatórios até o final de março e neutralidade predominante no inverno — a conta tende a ser dominada por reajustes anuais e por encargos como a CDE, com bandeiras menos agressivas. No cenário intermediário, a alternância de bandeiras no segundo semestre adiciona volatilidade. Portanto, pode empurrar a alta efetiva para o topo das projeções. Já num cenário de estresse hídrico, uma eventual piora de afluências na estiagem combinada com reprecificação de encargos joga a tarifa para cima de forma mais persistente, com impacto macro. A energia elétrica volta a ser vetor relevante de inflação administrada e de renda disponível das família. Isto é, justamente quando o Banco Central e o mercado monitoram expectativas, indexação e repasses.

A síntese é simples: 2026 tem um “piso” regulatório e um “teto” climático. A água pode aliviar no curto prazo — mas não remove o peso estrutural dos encargos. A La Niña perdendo força, com uma janela aberta para El Niño no segundo semestre e a cotação maior do petróleo. O preço final do ano passa a depender do comportamento dos reservatórios na travessia do período seco e da geopolítica internacional.

Fonte: cnn