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Estudo descobriu uma conexão mais ampla entre o cérebro e o sistema imunológico periférico, em situações de estresse e depressão - Foto: Flickr

Alterações no sistema imunológico podem indicar risco de depressão

Os sistemas nervoso e imune tendem a operar em interação intensa. Isso porque há uma rede de comunicação ampla que envolve proteínas, hormônios e neurotransmissores para a troca de mensagens entre um e outro

Um estudo de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) em parceria com a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, descobriu, contudo, uma conexão mais ampla entre o cérebro e o sistema imunológico periférico, a ponto de, em situações de estresse e depressão, genes comumente ativados apenas em neurônios estarem superexpressos nas células de defesa. Além de ampliar o entendimento sobre a interação entre o sistema nervoso e o imunológico, o achado abre caminho para novas linhas de pesquisa e para a descoberta de biomarcadores de depressão e de outros transtornos mentais.

“A partir da análise de dados públicos observamos que genes típicos do sistema nervoso estão superativados em leucócitos em casos de depressão maior. Posteriormente confirmamos esses dados em experimentos realizados em camundongos submetidos a estresse crônico. Isso foi surpreendente, pois, apesar de se saber que a comunicação entre os dois sistemas era direta, não se imaginava que fosse tão profunda”, afirma Haroldo Dutra Dias, primeiro autor do estudo publicado na revista Translational Psychiatry.

Cada indivíduo tem um genoma único com a sequência de todo o material genético do organismo. O que diferencia um neurônio para um leucócito, ou uma célula da pele para uma cardíaca, é a ativação genética. Ou seja, a ligação de genes presentes no genoma ligados ou desligados, ocorrem conforme a função, condição ou ambiente em que aquela célula está inserida.

O trabalho, apoiado pela Fapesp, demonstrou pela primeira vez que o gene PAX6 — associado ao surgimento de novos neurônios, sobretudo em bebês — também está relacionado a leucócitos em condições de estresse. A superexpressão do PAX6 — e de outros três genes (NEGR1, PPP6C, SORCS3) associados a ele, verificou-se tanto no transcriptoma (parte do genoma que está sendo expressa) de humanos quanto de camundongos sob estresse e depressão maior.

Técnica GWAS

A parte do trabalho que envolveu experimentação animal foi realizada em Harvard. Já as análises de dados dos humanos (obtidos a partir de bancos de dados públicos) e dos camundongos foram feitas na USP.

Para analisar o transcriptoma de humanos e camundongos, os pesquisadores da USP utilizaram uma técnica conhecida como GWAS (genome-wide association study), associada à análise de sequenciamento do RNA (RNAseq), uma abordagem integrativa que permite comparar diferentes genomas e transcriptomas a fim de identificar marcadores biológicos associados a um fenótipo específico ou ao risco de doenças, por exemplo.

“Trata-se de um trabalho de ciência básica de descobrir potenciais biomarcadores e novas vias terapêuticas para intervenção da depressão. Assim, abre a possibilidade de rever uma série de conceitos, como o papel do PAX6 no sistema imune e o grau de complexidade da interação neuroimune”, afirma Otávio Cabral-Marques. Ele é professor da FM-USP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e coordenador da investigação.

O estudo se deu com base em dados de pessoas com depressão maior e depois confirmado em experimentos em camundongos com o mesmo transtorno. Portanto, é provável que a superativação dos genes nas células de defesa seja observada em outros problemas de saúde mental.

“Muitos estudos já demonstraram a forte relação que a depressão e outros transtornos mentais têm com o sistema imune e a inflamação, por exemplo. Portanto, esse achado é só um primeiro passo que abre caminho para uma série de outros estudos que podem envolver outros transtornos. Como bipolaridade, esquizofrenia e ansiedade, para saber quais peculiaridades de cada transtorno podem refletir no tipo de alteração genética. E, quem sabe, até no grau desses adoecimentos”, detalha Dias.