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Células DARE revelam novo caminho para regeneração celular. Estudo mostra que essas células são essenciais para a cicatrização Imagem: Lightspring/Shutterstock

Cientistas desvendam mistério de células que desafiam a morte

Células DARE revelam novo caminho para regeneração celular

Pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência (Israel) descobriram as células DARE, que revertem o processo de morte programada para liderar a regeneração biológica. Ou seja, eles desvendaram um mistério de 50 anos identificando como o corpo reconstrói tecidos após danos severos.

O estudo, publicado na revista Nature Communications, mostra que essas células “ressuscitadas” são essenciais para a cicatrização, mas carregam um lado sombrio. Ao entender como elas sobrevivem ao estresse extremo, a ciência ganha uma ferramenta para combater a resistência de tumores em tratamentos de câncer.

Células que deveriam morrer voltam à vida para liderar a reconstrução do organismo

O processo começa com a ativação das caspases, enzimas que normalmente funcionam como carrascos celulares ao ordenarem a destruição de unidades danificadas. No entanto, em situações de trauma severo, algumas dessas células interrompem o caminho da morte e assumem outra função. Elas se tornam as chamadas células DARE, que resistem à autodestruição para coordenar o crescimento de novas células ao seu redor.

Essa descoberta resolve, antes de tudo, um enigma sobre a proliferação compensatória, estratégia de sobrevivência observada pela primeira vez em larvas de moscas há quase 50 anos. Além disso, os cientistas utilizaram radiação de alta dose para simular ferimentos graves e observar como o tecido se recuperava.

O que viram foi um grupo específico de células que, mesmo marcadas para morrer, permaneciam ativas e enviando sinais químicos de regeneração. Assim, o estudo revelou um mecanismo biológico inusitado e detalhado.

A chave para essa “ressurreição” está na proteína Myo1D, que atua como um motor molecular e protege o núcleo das células DARE. Sem essa proteção, as enzimas caspases completariam o processo de morte celular. Consequentemente, o tecido ficaria sem o estímulo necessário para se reconstruir.

Com a proteína em ação, por outro lado, a célula sobrevive tempo suficiente para comandar a divisão das células vizinhas saudáveis, garantindo, assim, a regeneração e evitando a degradação completa do tecido.

Esse mecanismo funciona de forma dupla: a célula DARE cresce individualmente e, ao mesmo tempo, emite comandos para que as células ao redor também se multipliquem. É um esforço coordenado que garante que o órgão ou tecido recupere sua massa original após um evento traumático. Esse entendimento muda a forma como a biologia enxerga a fronteira entre a vida e a morte celular.

Descoberta abre caminhos para acelerar a cicatrização e bloquear o retorno do câncer

Embora essencial para a vida, esse mecanismo de sobrevivência explica por que alguns tumores voltam com mais força após sessões de radioterapia. Ao serem bombardeadas por radiação, algumas células cancerosas podem acionar o mecanismo DARE e se tornar resistentes à morte. Em vez de serem eliminadas, elas passam a impulsionar o crescimento agressivo do tumor remanescente.

A conexão com a oncologia existe porque muitos tipos de câncer utilizam proteínas semelhantes à Myo1D para evitar a destruição pelo sistema imune ou por medicamentos. Identificar esse escudo molecular permite que cientistas pensem em drogas que bloqueiem especificamente a proteção das células DARE em tumores. Isso tornaria os tratamentos convencionais muito mais eficazes e reduziria as chances da doença voltar.

Por outro lado, em casos de ferimentos crônicos ou doenças degenerativas, a meta é o oposto: estimular a criação dessas células reparadoras. A manipulação controlada das caspases poderia acelerar a regeneração de tecidos que normalmente levam muito tempo para curar. É uma fronteira promissora para a medicina regenerativa, que busca mimetizar a capacidade natural de recuperação do corpo. 

Em síntese, os testes realizados em moscas-das-frutas servem como um modelo genético robusto para o que ocorre no corpo humano. Os pesquisadores agora buscam confirmar esses mesmos caminhos moleculares em tecidos humanos para validar as aplicações clínicas. O objetivo final é dominar o interruptor biológico que decide quando uma célula deve morrer e quando deve lutar para reconstruir a vida

Fonte: olhardigital