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O estresse é um mecanismo biológico essencial para a sobrevivência, pois sempre que o cérebro identifica uma ameaça, real ou percebida - Foto: Phere

Estresse crônico: os perigos de viver em alerta contínuo

Antes do surgimento dos sintomas, quase sempre existia um período prolongado de tensão provocado por situações que pareciam não ter saída

Perdas financeiras, conflitos familiares, rupturas afetivas, excesso de trabalho, doenças ou mudanças inesperadas mantinham o organismo em permanente estado de vigilância. O estresse é um mecanismo biológico essencial para a sobrevivência, pois sempre que o cérebro identifica uma ameaça, real ou percebida, ativa uma série de respostas coordenadas pelo sistema nervoso e pelo sistema endócrino. Em poucos segundos, hormônios como adrenalina e cortisol são liberados para preparar o corpo para reagir.

Essa reação, conhecida como luta ou fuga, foi decisiva ao longo da evolução humana. Diante de um perigo iminente, era necessário decidir rapidamente entre enfrentar a ameaça ou buscar proteção. Para isso, os batimentos cardíacos aceleram, a respiração se intensifica, os músculos recebem mais sangue e a atenção passa a se concentrar quase exclusivamente no risco.

Em condições normais, esse mecanismo é temporário. Assim que o perigo desaparece, a ativação diminui e o organismo recupera o equilíbrio. O problema é que na vida moderna muitas ameaças não têm um desfecho rápido. Dívidas, desemprego, conflitos conjugais, sobrecarga profissional, violência ou doenças na família podem manter essa resposta ativada por meses ou até anos.

Carga alostática

Foi esse fenômeno que o neurocientista Bruce McEwen descreveu ao formular o conceito de carga alostática. Segundo ele, o organismo consegue se adaptar ao estresse durante certo período. Quando essa ativação se prolonga, porém, ocorre um desgaste progressivo dos mecanismos responsáveis por manter o equilíbrio interno, aumentando o risco de doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, prejuízos cognitivos e transtornos psiquiátricos.

Hoje também sabemos que essa sobrecarga modifica regiões cerebrais fundamentais. A amígdala, relacionada às respostas emocionais, torna-se mais reativa; o hipocampo, responsável pela formação da memória, pode perder eficiência; e o córtex pré-frontal, envolvido no planejamento, na tomada de decisões e no controle dos impulsos, passa a funcionar de maneira menos eficiente. O resultado é uma mudança na forma como pensamos, sentimos e respondemos às situações do cotidiano.

A busca por alívio imediato

Quando o sofrimento se torna constante, é natural procurar maneiras rápidas de aliviar o desconforto. Algumas pessoas aumentam o consumo de café para manter o rendimento. Outras recorrem ao álcool para relaxar, fumam mais ou utilizam medicamentos para dormir sem orientação médica.

Costumo chamar esse comportamento de Síndrome do Popeye, em referência ao personagem que recorria ao espinafre para ganhar força instantaneamente. A metáfora representa a tentativa de obter energia, disposição ou alívio emocional por meio de substâncias que atuam diretamente sobre o sistema nervoso.

Do ponto de vista biológico, elas estimulam os circuitos cerebrais relacionados à recompensa, principalmente pela liberação de dopamina. A sensação de bem-estar, entretanto, costuma ser breve. Quando o efeito desaparece, surgem ansiedade, irritabilidade e o desejo de repetir o consumo, criando um ciclo que pode evoluir para a dependência química.

Nessa fase, costumam aparecer sinais característicos, como dificuldade para controlar o uso, necessidade de doses cada vez maiores e sintomas de abstinência quando a substância deixa de ser consumida.

Fonte: sbtnews