O que está em jogo com o fim do tratado New Start
O fim da vigência do tratado New Start, encerrado nesta quinta-feira (5), marca um ponto de inflexão na segurança internacional. O acordo era o último instrumento que limitava e monitorava os arsenais nucleares de Estados Unidos e Rússia, países que juntos concentram cerca de 87% de todas as ogivas nucleares do mundo.
O que era o New Start?
Em vigor desde 2011, o Tratado New Start estabelecia, antes de mais nada, limites claros para os dois países. Cada lado podia manter, no máximo, 1.550 ogivas nucleares implantadas. Além disso, até 700 sistemas de lançamento. Entre eles, mísseis balísticos intercontinentais, bem como mísseis lançados por submarinos e também bombardeiros pesados. Somados os sistemas implantados e não implantados, o teto era de 800.
O acordo, contudo, não tratava apenas de reduzir números. O New Start criava regras para garantir previsibilidade e evitar desconfianças entre as duas potências. Havia troca regular de informações, notificações antecipadas sobre movimentações e inspeções presenciais.
Cada país tinha direito a até 18 inspeções por ano, divididas entre visitas a bases com armas estratégicas implantadas e locais que abrigavam armas não implantadas ou equipamentos relacionados. O tratado também previa a manutenção de bancos de dados atualizados e a troca periódica de notificações sobre mudanças nos arsenais.
Outro ponto central era a transparência técnica. Estados Unidos e Rússia trocavam informações telemétricas de lançamentos de mísseis balísticos, o que permitia acompanhar testes e reduzir o risco de interpretações equivocadas sobre capacidades militares.
O acordo ainda criou uma Comissão Consultiva Bilateral, responsável por discutir questões operacionais, resolver ambiguidades e facilitar a cooperação na implementação do tratado. Além disso, proibia a transferência de sistemas estratégicos ofensivos cobertos pelo New Start a terceiros.
Qual é o risco? ONU faz alerta
Com o fim da vigência e também sem tratado substituto, esses mecanismos deixam de existir. Na prática, EUA e Rússia ficam livres. Assim, podem aumentar seus arsenais nucleares. Ao mesmo tempo, reduzem drasticamente a transparência. Por fim, esse cenário pode desencadear nova corrida armamentista.
A gravidade da situação foi destacada, por sua vez, pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. Ele classificou o fim do tratado como “momento sério para a paz e a segurança internacionais”.
“A dissolução de décadas de conquistas não poderia ocorrer em pior momento – o risco de uso de uma arma nuclear é o mais alto em décadas. Mesmo neste momento de incerteza, devemos buscar esperança. Esta é uma oportunidade para recomeçar e criar um regime de controle de armas adequado a um contexto em rápida evolução”, afirmou em comunicado.
Atualmente, os estoques estimados são de 5.459 ogivas nucleares da Rússia e 5.177 dos Estados Unidos, segundo a Federação de Cientistas Americanos.
Um fact sheet divulgado pelo governo dos Estados Unidos, em 2023, quando a Rússia anunciou a suspensão do Novo START, mostrou que, além das ogivas, os Estados Unidos também têm estoques de 662 mísseis balísticos intercontinentais. Do mesmo modo, possuem mísseis lançados por submarinos, bem como bombardeiros pesados implantados.
Já o total de lançadores — incluindo mísseis e bombardeiros implantados e não implantados — chega a 800.
Em setembro, o presidente russo Vladimir Putin propôs a extensão, por 12 meses, do cumprimento dos limites do New Start, mas até agora não houve resposta formal do presidente dos EUA, Donald Trump.
Sem limites, inspeções bem como canais de diálogo previstos no tratado, o risco de escalada nuclear entre as duas maiores potências do planeta se torna significativamente maior.
Fonte: sbtnews



