A totalidade acontecerá ao entardecer, dessa forma, oferecerá condições excepcionais para observação e fotografia em uma ampla região da Península Ibérica
Enquanto milhões de pessoas se mobilizam para acompanhar o eclipse solar total que cruzará a Europa nesta quarta-feira (12), os cientistas enxergam no fenômeno uma oportunidade rara de observar um dos maiores mistérios da nossa estrela: a coroa solar. O astrofísico Milan Maksimovic, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e diretor do Laboratório de Instrumentação e Pesquisa em Astrofísica do Observatório de Paris, explicou por que o eclipse continua fascinando tanto especialistas quanto o público.
De acordo com Maksimovic, que acompanhará o fenômeno na cidade espanhola de Burgos, um dos aspectos mais especiais deste eclipse é o horário em que ele ocorrerá. A totalidade acontecerá ao entardecer, dessa forma, oferecerá condições excepcionais para observação e fotografia em uma ampla região da Península Ibérica.
“Será um eclipse bastante interessante, com duração entre um e dois minutos, dependendo da região. Como ocorrerá ao pôr do sol, deverá proporcionar fotos verdadeiramente magníficas”, afirmou. Na faixa de totalidade, a Lua encobrirá completamente o disco solar por alguns instantes, revelando apenas a coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol. É justamente esse fenômeno que ocupa grande parte da carreira científica do pesquisador francês.
Auroras boreais e austrais na Terra
Segundo Maksimovic, a coroa solar intriga os cientistas porque apresenta uma característica oposta à da atmosfera terrestre. Enquanto na Terra a temperatura diminui à medida que a altitude aumenta, no Sol ocorre o contrário.
“Acima da fotosfera, que é a camada luminosa que enxergamos, a temperatura aumenta até atingir cerca de um milhão de graus Celsius”, explicou.
Esse aquecimento extremo produz o chamado vento solar, um fluxo contínuo de partículas carregadas que se espalha por todo o Sistema Solar. O fenômeno está relacionado à formação das auroras boreais e austrais na Terra, mas também pode afetar satélites, sistemas de comunicação e outras tecnologias espaciais.
Vento solar
Apesar dos avanços obtidos por sondas e observatórios espaciais, os pesquisadores ainda não conseguem explicar completamente por que a coroa solar é tão mais quente que a própria superfície do Sol.
“É justamente isso que continuamos estudando. Ainda não sabemos exatamente por que a coroa é tão quente nem todos os mecanismos envolvidos na formação do vento solar”, disse.
Formado por partículas carregadas emitidas pelo Sol, o vento solar afeta diversas atividades na Terra. Essas emissões podem gerar níveis elevados de radiação para astronautas em missões espaciais, interferir em sinais de GPS e telecomunicações, sobrecarregar redes elétricas e até alterar a órbita de satélites ao aumentar o arrasto nas camadas superiores da atmosfera terrestre.
Embora os eclipses sejam fundamentais para o desenvolvimento da astronomia, Maksimovic ressalta que a maior parte das pesquisas atuais sobre a coroa solar ocorre por instrumentos instalados no espaço, capazes de monitorar o Sol continuamente. Ainda assim, os eclipses mantêm um valor científico, educativo e emocional difícil de substituir.
“Existe uma magia que acontece durante um eclipse. Não é o primeiro que vejo, mas continua sendo uma experiência única”, afirmou.
Alerta contra a desinformação
Esse fascínio não se limita à ciência. Ao longo da história, eclipses solares foram cercados por crenças e superstições em diferentes culturas. Diversas tradições religiosas interpretaram o fenômeno como um sinal divino, muitas vezes associado a maus presságios, mudanças profundas ou até previsões apocalípticas.
Embora essas interpretações não tenham base científica, elas continuam circulando no mundo contemporâneo. Segundo especialistas, as antigas superstições podem ganhar nova força nas redes sociais, onde frequentemente se misturam à desinformação e a notícias falsas sobre o fenômeno.
15 milhões de espectadores na faixa da totalidade
O eclipse desta quarta-feira transformará o dia em noite para cerca de 15 milhões de pessoas que vivem na faixa de totalidade, região onde a Lua encobrirá completamente o Sol. O corredor do fenômeno atravessa a Groenlândia, a Islândia, o norte da Rússia, a Espanha e uma pequena área de Portugal. Em outras partes da Europa, da África, da Ásia e da América do Norte, o eclipse será visto apenas de forma parcial.
Na França, embora a totalidade não seja visível, o espetáculo promete impressionar os observadores. Dependendo da região, a Lua encobrirá entre 90% e 99% do disco solar durante o pôr do sol. O alinhamento terá início pouco depois das 19h e atingirá seu auge entre 20h15 e 20h30, antes de terminar por volta das 21h15.
Além das observações astronômicas, pesquisadores pretendem aproveitar o fenômeno para estudar como a súbita redução da luminosidade influencia o comportamento de animais e plantas. Alterações nos hábitos de aves, insetos e outras espécies já foram registradas durante eclipses anteriores.
Óculos certificados
Para o público, porém, a principal preocupação tem sido conseguir os equipamentos adequados para acompanhar o espetáculo. Na França, os óculos certificados para observação solar se tornaram um item disputado nas últimas semanas. Segundo a imprensa francesa, mais de 10 milhões de unidades foram vendidas no país, e muitos estabelecimentos registraram falta de estoque às vésperas do eclipse.
Especialistas lembram que observar o Sol sem proteção adequada pode provocar danos graves e irreversíveis à retina. Os óculos certificados devem ser utilizados durante todas as fases parciais do eclipse.
O fenômeno não será visível do Brasil. No entanto, poderá ser acompanhado por transmissões realizadas por observatórios e instituições científicas que estarão mobilizados ao longo da faixa de totalidade.
Fonte: terra/rfi




