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Estudo pode ser a resposta aguarda há décadas contra um dos cânceres mais letais e difíceis de tratar os pacientes, o câncer no pâncreas - Foto: Divulgação/ Conep

Estudo para câncer de pâncreas dobra tempo de vida dos pacientes

A farmacêutica Revolution Medicines divulgou, nesta segunda-feira (13), os últimos resultados dos testes com o medicamento daraxonrasib

Estudo sobre medicamento, pode ser a resposta aguarda há décadas contra um dos cânceres mais letais e difíceis de tratar os pacientes, o câncer no pâncreas.

A farmacêutica Revolution Medicines divulgou, nesta segunda-feira (13), os últimos resultados dos testes com o medicamento daraxonrasib, estudado contra uma das formas agressivas da doença, o adenocarcinoma ductal de pâncreas (ADP), em pacientes com metástase (quando a doença já se espalhou para outras partes corpo).

Os resultados foram divulgados via comunicado de imprensa, ou seja, ainda não passaram por revisão para a publicação em um periódico científico.  Mas animam porque, em comparação com a quimioterapia, atual (e único) padrão de tratamento, a pílula quase dobrou a sobrevida dos pacientes.

Considerando o início da terapia, metade dos pacientes que tomou o novo remédio viveu, em média, mais 13,2 meses, enquanto a metade dos que fizeram quimioterapia viveu 6,7 meses.

“É uma sobrevida de 13 meses, mas, geralmente, a sobrevida do câncer de pâncreas é de menos de um ano“, explica o oncologista João Fogacci, especialista em tumores do aparelho digestivo da Oncologia D’Or e doutorando do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Os desafios no tratamento do câncer de pâncreas

Para comparar, no câncer de pâncreas, 13 em cada 100 pacientes estão vivos cinco anos após o diagnóstico. Já no câncer de mama, por exemplo, os números são de 80 a 99, quando a doença é descoberta cedo, e cerca de 30 em casos de metástese.

Por isso, o médico destaca que, embora seja um tratamento paliativo, estudos com esse tipo de tumor nunca chegaram tão longe. Agora, novas portas devem se abrir para o tratamento da doença. “É uma coisa, do nosso ponto de vista, revolucionária“, afirma Fogacci.

Para ter ideia, segundo o Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, a cada 100 mil pessoas, cerca de 14 desenvolvem a doença por ano no país, e 11 morrem por causa dela.

Além disso, enquanto cânceres como mama, pulmão ou rim já contam com terapias mais precisas — como as terapias-alvo, que agem direto nas alterações do tumor, e a imunoterapia, que estimula o sistema imune a combatê-lo —, nenhuma dessas estratégias funcionou de forma ampla no câncer de pâncreas até o momento.

Assim, o principal tratamento seguia sendo, além de cirurgias, a quimioterapia, que atua no corpo inteiro, afetando, inclusive, células saudáveis (o que explica os efeitos colaterais conhecidos).

Agora, a pesquisa conseguiu demonstrar efeito da primeira terapia-alvo para esse tumor, utilizando um mecanismo de ação considerado totalmente novo para o câncer de pâncreas e, quiçá, impensável no passado.

A pesquisa

Os resultados vêm do estudo RASolute 302, uma pesquisa clínica internacional, randomizada e ainda em andamento.

A análise está em fase 3 – a etapa final antes de um medicamento chegar ao mercado. Os pesquisadores dividiram os participantes em dois grupos. Um recebeu o daraxonrasib, comprimido tomado diariamente na dose de 300 mg.

O outro seguiu com a quimioterapia tradicional, definida pelo médico. Todos tinham um tipo agressivo da doença, o adenocarcinoma ductal pancreático metastático, e já haviam passado por tratamentos anteriores.

O foco era medir dois pontos: quanto tempo o paciente conseguiria viver sem ter uma piora do quadro (a chamada sobrevida livre de progressão). E o tempo total de vida dos pacientes (sobrevida global).

É assim que os resultados finais sugerem que, quem tomou daraxonrasib, alcançou uma sobrevida global de 13,2 meses. E, com efeitos colaterais considerados manejáveis e sem novos sinais de preocupação em relação à segurança.

Como o medicamento funciona

Nas pesquisas, o daraxonrasib foi administrado por via oral uma vez ao dia para os pacientes. Segundo Fogacci, o remédio foca na mutação do gene KRAS, uma alteração responsável por iniciar a formação do câncer em cerca de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal de pâncreas.

“Quando me formei, há 15 anos, aprendi que esse alvo, onde a droga age, era “undrugable”. Ou seja, nunca seria usado para desenvolver fármacos, porque era impossível”, conta Fogacci.

O KRAS funciona como um “pedal de acelerador” para o crescimento celular. Mas, quando sofre mutação, fica permanentemente ligado, enviando estímulos contínuos para as células se multiplicarem. O que favorece a formação de tumores. O grande diferencial do daraxorazib é ser um inibidor desse fenômeno, mas, sobretudo, em um amplo espectro.

Segundo Fogacci, os primeiros inibidores de KRAS surgiram em 2020. Mas, no caso do câncer pâncreas, só conseguiam agir em uma alteração rara e promover uma resposta temporária. Uma droga que agisse de uma forma mais abrangente, atingindo outras mutações, sempre foi um sonho para a área médica. “Por isso, estamos diante de uma quebra total de paradigma“, crava o oncologista.

Agora, com os dados em mãos, a Revolution Medicines planeja agora submeter o medicamento para avaliação de agências regulatórias. Isto é, como a Food and Drug Administration (dos Estados Unidos), em um pedido formal de aprovação para a fabricação como medicamento.

Além disso, apresentarão os resultados em um dos principais congressos da área, a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que ocorre entre maio e junho de 2026.

Fonte: terra